"É melhor atirar-se à luta em busca de dias melhores, mesmo correndo o risco de perder tudo, do que permanecer estático, como os pobres de espirito, que não lutam, mas também não vencem, que não conhecem a dor da derrota, nem a glória de ressurgir dos escombros. Esses pobres de espírito, ao final de sua jornada na Terra não agradecem a Deus por terem vivido, mas desculpam-se perante Ele, por terem passado pela vida."

Robert Nesta Marley


14/06/2009

DIFERENTES FORMAS DE VER A PESSOA COM DEFICIÊNCIA AO LONGO DOS TEMPOS

" A deficiência não é só impossibilidade, mas também força. Nesta verdade psicológica se encontra o início e o fim da educação social dos alunnos com deficiência."
Vygotsky, 1989.
Pense nos seus alunos ou nas pessoas com as quais convive: são todas iguais? Todos aprendem da mesma forma? Há aquela que precisam de atenção mais particularizada, mais individualizada?
O que é então uma pessoa com necessidades especiais?
Na Pré-história, as sociedades caracterizavam-se pelo nomandismo, dessa forma aquele indivíduo que não pudesse contribuir para o grupo, apresentando algum defeito, era abandonado, sem que isso causasse algum sentimento de culpa às pessoas que com eles conviviam.
Na Idade Média, a sociedade baseada em concepções religiosas considerou os deficientes e todos aqueles que diferissem das normas, como símbolos do pecado.
Na Idade Moderna, a diferença passou a ser relacionada à disfuncionalidade. A pessoa com deficiência é considerada aquela que não funciona ( BIANCHETTI, 1998). Por serem consideradas um perigo para si mesmas e para a sociedade não podiam ficar juntas com as pessoas normais, sendo isoladas em hospitais psquiátricos, asilos e manicômios.
No decorrer do século passado, o entendimento sobre a deficiência mudou bastante: antes de 1960, o olhar sobre a deficiência ainda muito estático. Achava-se que as pessoas que nasceram com deficiência não teria como se desenvolver sendo um fardo para a família. Foi a partir dos anos 60/70, começou-se a entender que a deficiência tinha relação com fatores ambientais, isto quer dizer, que o ambiente no qual vivemos pode contribuir para que sejamos mais ou menos dependentes.
De acordo co Vygotsky (1989), a aprendizagem que temos em nosso meio cultural abre caminho para o desenvolvimento e estes se iterelacionam: quanto mais aprendo, mais me desenvolvo e, quanto mais me desenvolvo, mais aprendo. Desta forma, cada ser humano deve ser visto como único e singular: somos todos diferentes, pois aprendemos coisas diferentes e, mesmo aprendendo as mesmas coisas ou processos, entendemos de forma diferente.
Pesquisando e trabalhando com crianças deficientes, Vygotsky concluiu que as deficiencias que um ser humano possa vir a trazer vem acompanhadas de uma força antagônica, contrária, que visa à superação dessas deficiências. Isso significa que o cérebro humano tem a capacidade de adaptar-se, de inventar novas formas de sobreviver, de criar soluções para os problemas e as dificuldades que encontra.
Para Vygotsky, portanto, é mais importante como a criança reage e convive com sua deficiência de que saber o que esta deficiencia impede a pessoa de fazer.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fome são iguais.
todos os amores, iguais, iguais, iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte igualissima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações crueis, piedosas ou indiferentes são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho ímpar.


Carlos Drummond de Andrade

27/05/2009

As práticas sociais da leitura

As formações de professores, são momentos impar, para refletir e mudar os rumos da nossa educação. Neste sentido, no ultimo dia 25.05.09, atendendo ao convite dos Coordenadores Pedagógicos dos anos finais do Ensino Fundamental Celeste e José Raimundo, promovemos juntos um belissimo espaço de discussão sobre a leiura, da qual alguns pontos destacados você pode conferir logo abaixo.










































































“Todos lemos à nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. (...) Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar, é nossa função essencial.”
Alberto Manguel



“Pode existir sociedades sem escrever, mas nenhuma sociedade pode existir sem ler.”



Se as duas frases anteriores são afirmativas, por que nossos educandos, e em alguns momentos, nós mesmos, demonstramos aversão pela leitura?

Inicialmente vamos refletir sobre nossas experiência de leitura:




Que tipo de leitura você aprecia e costuma ler?
Quais foram suas leitura inesquecíveis e prazerosas?
Quais deixaram um gosto amargo ou foram incompreensíveis?
E as leituras realizadas na escola? Quais eram seus objetivos? Como eram realizadas?


Agora podemos pesar um pouco acerca da falta de "intimidade" de nossos educandos com a leitura:


A realidade vivenciada atualmente, é fruto de um logo processo histórico, no qual o acesso à leitura era privilégio de poucos, poís a mesma era concebida como um síbolo de poder e sacralidade.


Na Antigüidade grega a escrita é colocada a serviço da cultura oral e da conservação do texto, onde a leitura era feita por poucos alfabetizados. A partir da época helenística, a literatura passa a depender da escrita e do livro, cujo formato padrão era o volumen ou rolo, dando início à uma nova organização na produção literária. Surgem as grandes bibliotecas helenísticas que representavam muito mais sinais de grandeza e de poder, do que propriamente a difusão da leitura.


Roma herda do mundo grego a estrutura do volume e as práticas de leitura. A leitura é um hábito exclusivo das classes privilegiadas, dando origem às bibliotecas particulares, símbolos de uma sociedade culta. O códex, um livro com páginas, substitui o rolo a partir do século II d.C, e essa transformação do livro trás em si, novas práticas leitoras.


Durante a Idade Média, a prática da leitura concentrou-se no interior das igrejas, das celas, dos refeitórios, dos claustros e das escolas religiosas, geralmente restritas às Sagradas Escrituras. Com o códex, na Alta Idade Média surge a maneira silenciosa de ler, sobretudo textos religiosos que exigiam uma leitura meditativa.


Entre os séculos XI e XIV, quando renascem as cidades e com elas as escolas, desenvolvendo a alfabetização, surge uma nova era da história da literatura, pois o livro passa a representar um instrumento de trabalho intelectual, de onde chega o saber. Ao mesmo tempo inovam-se os modelos de biblioteca, cujo espaço organizado e silencioso é destinado à leitura.


Devido ao desenvolvimento econômico e social, aumentou a necessidade de instrução da população. Com isso, a implantação de escolas públicas gradativamente passou a crescer.


E nós?
O que estamos propondo aos nossos alunos que também são privados, em muitas situações, das vivências sociais da leitura?


Estamos possibilitando a eles o acesso à este bem cultural de forma significativa e prazerosa?


É preciso repensar-mos nossas práticas!
A leitura na escola, assim como na sociedade, precisa ter significado. E nesse sentido algumas propostas podem mobilizar os alunos para participar de vivencias onde a leitura se faça presente:
Mar de história;
Projeto fotonovela e história em quadrinhos;
Projeto cartão-postal;
Projeto leitor público – contador de história;
Projeto teatro na escola e na comunidade;
Leitura de clássicos da literatura;
Casa do escritor;
Saraus literáreos, dentre outras.




"A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede.“
Carlos Drummond de Andrade





Vamos juntos mudar essa realidade!



19/05/2009

EDUCAÇÃO E VIDA

O PRIMEIRO BEIJO


Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.

- Quem era ela? perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.

Clarice Lispector, in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998